domingo, 30 de maio de 2010

ESTILÍSTICA E JARGÃO

"A Estilística estuda os processos de manipulação da linguagem que permitem a quem fala ou escreve sugerir conteúdos emotivos e intuitivos por meio das palavras. Além disso, estabelece princípios capazes de explicar as escolhas particulares feitas por indivíduos e grupos sociais no que se refere ao uso da língua."

No decorrer da minha pesquisa sobre Estilística encontrei várias definições para este termo, sendo que esta foi a que me pareceu mais completa e elucidativa.

Qualquer leitor de jornais e revistas se depara no seu quotidiano com inúmeras crónicas dos mais diversos autores e acerca dos mais diversos temas. Estes autores ou cronistas adoptam geralmente um estilo (formal, coloquial, humorístico, ...) ao qual à partida permanecerão fiéis. Para transmitirem com mais ênfase as suas opiniões recorrem frequentemente a figuras de estilo que conferem ao texto o cunho pessoal do autor.

A par com a Estilistica, é de salientar a importância da função da linguagem (referencial, denotativa, emotiva, conotativa, poética, fática, metalinguística...) como base sobre a qual assenta o conteúdo linguístico e como veículo que permite transmitir aos leitores as escolhas particulares feitas no que se refere ao uso da lingua, tal como nos diz a definição acima transcrita.

Ligado muitas vezes à estilística está o conceito de jargão: este designa a linguagem ou conjunto de termos específicos utilizados por um determinado grupo, geralmente profissional ou ligado a uma área técnico-científica.

É imediato, pois, verificar os pontos em comum entre a estilística e o jargão: ambos transmitem a ideia de "várias linguagens" dentro da mesma língua, neste caso a lingua Portuguesa. Enquanto que o jargão está mais relacionado com grupos profissionais que adoptam um conjunto de termos específicos, a estilística prende-se com o tipo de linguagem utilizado por determinados grupos sociais ou em determinados estilos literários.

No TAC relativo a Estilística e Jargão foi sugerido aos alunos que simplificassem e clarificassem o significado de três frases provenientes fontes distintas.


O MEU TAC DE ESTILÍSTICA E JARGÃO

1. “O credor reserva-se a faculdade, de a todo o tempo e independentemente de qualquer regime especial aplicável, capitalizar juros remuneratórios correspondentes a um período não inferior a três meses (…)” (Banco)

Texto simplificado: O credor, que é a pessoa ou entidade que emprestou dinheiro a outra pessoa ou entidade, tem direito de receber juros correspondentes a um período de três meses ou mais, independentemente do regime de crédito aplicado.


2. “Os resíduos, que nunca deverão ser líquidos ou liquefeitos, devem ser colocados no contentor em boas condições de estanquicidade.” (Câmara Municipal)

Texto simplificado: Os resíduos a colocar no contentor não podem ser líquidos ou potencialmente transformáveis em líquido, e devem ser ser bem vedados e isolados de modo a que não haja qualquer fuga de resíduo.


3. “Estimado(a) cliente: Informamos que o contador colocado nesse local necessita de ser substituído por Manutenção Preventiva (Regulamento de Controlo Metereológico).” (Companhia de Fornecimento de Água)

Texto simplificado: A companhia de fornecimento de água pretende comunicar aos utentes que o contador da água tem que ser substituído por outro, por questões de manutenção preventiva do equipamento do local.


COMENTÁRIOS

Este trabalho não tinha um elevado grau de dificuldade, nem exigiu da parte dos alunos um trabalho exaustivo de pesquisa adicional.
No entanto, serviu para dar aos alunos uma noção da adequação dos estilos linguísticos às diversas situações do quotidiano: uma carta escrita por um cidadão ao seu advogado, por exemplo, nunca deverá ser escrita em linguagem corrente, coloquial, mas sim numa linguagem formal; a linguagem utilizada por uma mãe para com o seu filho não será a mesma que esta utiliza quando fala com o seu chefe no trabalho. Isto apenas para ilustrar a importância da adaptação da linguagem à função que se pretende que esta desempenhe e acima de tudo ao interlocutor.

Para finalizar esta entrada sobre estilística e jargão, e um pouco a propósito da crónica de Pedro Mexia lida pelos alunos no workshop de PMI, deixo aqui a crónica desta semana para a revista Visão de um dos meus humoristas de eleição em portugal, Ricardo Araújo Pereira. O seu estilo sarcástico é quase inconfundível, e algumas das suas observações chegam por vezes a ser brilhantes.

"Ser português não é bem uma condição, é uma habilidade circense. E das difíceis. O trapezista, no circo, balouça-se de cabeça para baixo e grita "Agora sem mãos!", o que não deixa de ser admirável, mas ser português também é um número arriscado: "Agora sem emprego!", gritam uns. "Agora sem saúde!", gritam outros, depois do fecho das urgências. "Agora sem dinheiro!", gritam quase todos desde que o Governo começou a tomar as chamadas medidas de austeridade. Primeiro, com o PEC, foi preciso apertar o cinto. Neste momento, com os novos aumentos de impostos, parece ser tempo de Portugal apertar o cordel. Os mendigos não usam cinto. Passam uma guita pelas presilhas e dão um nó à frente. Creio que o que estamos a apertar agora é essa guita - ironicamente, por falta de guita.

Apesar de tudo, a notícia de que o Governo iria aumentar os impostos sobre o rendimento deveria ter agradado aos portugueses: muitos deles não sabiam que ainda tinham rendimentos para taxar. Poderia ter sido uma agradável surpresa. Infelizmente, o povo português é difícil de contentar. Há uns anos, a palavra de ordem era "Basta de salários de miséria!" Agora é "Deixem os nossos salários de miséria como estão!" Ora não querem salários de miséria, ora recusam que se lhes mexa neles. Vá lá uma pessoa compreender este povo.

"Que fazer, amigo leitor? De que modo podemos salvar o País da falência? Sobre isso, tenho a mesma opinião que o ministro das Finanças: não faço a mínima ideia. Mas tenho uma sugestão que gostaria de apresentar. O País não está bem, isso é certo. Com mais de 800 anos, também já não vai para novo. E há mais de 500 que não consegue fazer nada especialmente digno de nota. Enquanto país uno e indivisível, não parece ter grande futuro. Mas, que diabo, não haverá ninguém que queira isto para peças? Como se faz com a sucata: a unidade funciona mal, mas há duas ou três fracções que ainda podem ter serventia - e valer dinheiro. Tendo em conta o papel proeminente que alguns sucateiros têm na nossa sociedade, não poderíamos aproveitar a sua sabedoria no que toca a desmembrar coisas para as rentabilizar? Os espanhóis hão-de estar interessados no Minho e em Trás-os-Montes. Os holandeses, ao que parece, gostam muito do Alentejo. No fundo, não seria muito diferente do que fizemos com o Algarve e os ingleses. É só uma ideia. E talvez seja absurda, admito. Pelo menos, não tem aquela qualidade que costuma caracterizar as medidas que realmente salvaguardam o interesse e o futuro do País: não vai ao bolso dos contribuintes."

Ricardo Araújo Pereira in Visão (27 de Maio de 2010)


E, por fim, para quem gosta de ler uma boa crónica e for fã de Clara Ferreira Alves, sugiro a compilação das suas crónicas semanais no jornal Expresso, editada pela Dom Quixote: A Pluma Caprichosa - Crónicas de Clara Ferreira Alves.

http://www.alfarrabista.com/EDICAO/1036027/

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